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Quarta, 15 Agosto 2018 14:04

Ecos de Amsterdã: resposta brasileira ao HIV é reconhecida mundialmente

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Terminada a 22ª Conferência Internacional de Aids (Aids 2018), o balanço dos dias intensos – de muita troca e aprendizado – foi que a resposta brasileira ao HIV trilha o caminho da liderança e pioneirismo que sempre a acompanhou. E falo isso pelo amplo debate e efetiva participação da sociedade civil organizada e das redes de pessoas vivendo com HIV/aids – os verdadeiros protagonistas dessa resposta.

O Brasil, que se faz presente desde a primeira edição da conferência, teve uma das mais expressivas participações de sua história, mostrando que, embora sejamos um país em desenvolvimento e com muitos desafios políticos, econômicos e sociais a superar, somos capazes de produzir evidências científicas robustas e que agregam conhecimento e expertise à resposta global à epidemia.

Foi importante acompanhar e participar de sessões científicas que apresentaram resultados de estudos demonstrativos da eficácia do antirretroviral dolutegravir (DTG) na supressão da carga viral e que mostraram os bons resultados da Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP). Evidências que confirmaram as decisões acertadas da política brasileira de prevenção e tratamento do HIV/aids.

Confirmamos nosso pioneirismo ao sermos um dos destaques da conferência por produzirmos um dos maiores estudos de vida real sobre o uso do DTG. O estudo analisou informações de mais de 100 mil brasileiros em tratamento antirretroviral, por meio de dados coletados nos sistemas de informação do Sistema Único de Saúde (SUS).

Nossa decisão inovadora de incorporar o DTG como primeira linha para pacientes em início de tratamento – à época considerada ousada para um país de renda média como o Brasil – foi lembrada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) durante painel que debateu as novas diretrizes para o tratamento do HIV. Esse fato também nos incluiu em uma sessão científica na qual relatamos como foi possível oferecer esse antirretroviral mantendo a sustentabilidade da política brasileira de acesso universal e gratuito ao tratamento.

Ainda sobre o dolutegravir: integramos também discussões em torno das novas evidências sobre os possíveis riscos do medicamento durante a concepção, levantadas a partir de estudo em Botswana sobre o risco de malformações congênitas em bebês nascidos de mulheres que engravidaram tomando DTG. Apresentamos os resultados preliminares de análise de banco de dados do SUS – mostrando que no Brasil, até agora, não foi identificado nenhum bebê com defeito do tubo neural entre os que nasceram de mulheres em uso de DTG.

Outro destaque da conferência foi a confirmação do “tratamento como prevenção” e da PrEP como estratégias de prevenção altamente eficazes, principalmente para homens que fazem sexo com homens (HSH).

Foi muito importante ouvirmos as lições aprendidas pelos países que já disponibilizam a PrEP e ver como podemos trazê-las à nossa realidade.

Iniciamos a oferta de PrEP pelo SUS no início de 2018 e apresentamos os resultados desses primeiros seis meses de implantação durante a Aids 2018, mostrando que mais de 2,5 mil pessoas já haviam iniciado a profilaxia no Brasil. No entanto, o acesso a essa nova estratégia preventiva ainda está concentrado entre gays e HSH de alta escolaridade – o que demonstra que o nosso grande desafio é fazer com que a PrEP chegue a outras populações também vulneráveis, como gays e HSH negros e de baixa escolaridade, pessoas trans e trabalhadoras do sexo.

Falas sobre a abordagem integral e o acesso universal aos cuidados de saúde para as pessoas vivendo com HIV ecoaram durante a conferência e encontraram ressonância com as estratégias adotadas recentemente pelo nosso sistema público de saúde e que foram apresentadas durante sessões da Aids 2018 – a exemplo do Plano de Eliminação da Hepatite C, que prevê a testagem frequente para esse agravo em pessoas vivendo com HIV, em PrEP e em populações-chave; ou da integração dos programas nacional de HIV e tuberculose (TB), que recentemente incluiu recomendação para que o tratamento da TB (isoniazid 300mg) passasse a ser dispensado também em serviços de HIV.

Ao final da conferência, trouxemos na bagagem toda a experiência e o conhecimento compartilhados com mais 160 países que ali estiveram representados. Em especial, a vivência do enfrentamento da epidemia pelos movimentos sociais, que nos chamam para a realidade e nos apontam os desafios, fazendo a ponte entre o mundo real e a política pública – em uma relação crucial que nos apoia nas lutas necessárias. Durante a conferência recebemos carta assinada por diversas entidades nacionais e internacionais em apoio à decisão do Ministério da Saúde de adquirir genéricos para o tratamento da hepatite C.

Trouxemos também o estímulo para seguirmos adiante, pois, apesar de todos os avanços, muitas barreiras precisam ser superadas, principalmente as que impactam diretamente os números de novos casos. Esses impactos são sentidos especialmente entre os jovens, por barreiras que impedem que ações de prevenção cheguem aos mais vulneráveis, como pessoas trans, trabalhadoras sexuais, pessoas que usam álcool e outras drogas, pessoas privadas de liberdade, gays e outros HSH.

Embora o Brasil tenha avançado na garantia dos direitos de pessoas vivendo com HIV e de populações mais vulneráveis – fomos convidados pelos organizadores da conferência a mostrar nossos avanços no campo dos direitos das pessoas trans, como a garantia legal da mudança do nome e do gênero das pessoas trans nos registros civis, a inclusão dos campos “nome social”, “identidade de gênero” e “orientação sexual” em nossos sistemas de informação em saúde e o acesso gratuito ao processo transexualizador –, ainda somos um dos países que mais matam pessoas trans no mundo e o debate sobre a criminalização da homotransfobia permanece estagnado no Congresso Nacional, enquanto ressurgem projetos de leis que retomam a discussão sobre a criminalização da transmissão do HIV.

Por tudo isso, a mensagem que fica é que precisamos avançar ainda mais. O mundo precisa enfrentar a violência, o estigma, a discriminação, a criminalização da relação sexual entre pessoas do mesmo sexo ou das que vivem com HIV, a pobreza e a exclusão – todos fatores de vulnerabilidade que deixam muitos para trás e impedem um avanço mais promissor. Por essa razão, diferentemente do que muitos pensam, precisamos continuar avançando, tanto no campo da prevenção quanto do tratamento, para reduzir o número de novas infecções, dos casos de aids, ampliando ainda mais a expectativa e a qualidade de vida de quem vive com o HIV.

* Adele Schwartz Benzaken é diretora do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das Infecções Sexualmente Transmissíveis, do HIV/Aids e das Hepatites Virais.

Fonte: http://agenciaaids.com.br/artigo/ecos-de-amsterda-resposta-brasileira-ao-hiv-e-reconhecida-mundialmente/